Domingo, Julho 17, 2005

Habitat = Shopping

Estou sentada, a meio da rua Garrett, distraída, a ouvir conversas cruzadas, histórias?
Sai gente de todos os lados e passam por mim a correr. Todos vão atrasados?
Entram a correr nas lojas?correm para o Metro?escondem-se nas ruas?provavelmente nunca mais os verei!
Indiferentes a este corrupio estão os turistas, cansados das suas rotinas, apenas são capazes de se surpreender com as rotinas dos outros. Mas se alguns são visitantes pela primeira vez, outros, que por cá passam todos os dias, também nunca cá estiveram.

Este espaço assume várias identidades, Podemos encontrar dentro de um macro ?habitat, vários micro habitas. Em diferentes ruas há diferentes ambientes ?onde se invocam ou impõem diferentes atitudes e relações.

A cidade, o lugar ? cidade, coloca-nos armadilhas. Esse lugar é, hoje em dia, concebido para ser uma experiência activa e contínua. Numa espécie de exploração infindável, esta é laboratório e palco das mais variadas experiências.
A extensão das cidades mudou, como mudaram as intenções dos seus utilizadores. Lisboa é feita de ?camadas?, a sua essência está na acumulação e o seu fascínio maior reside no seu inegável factor de uso.

As actividades ligadas ao comércio vieram sendo implantadas neste espaço a partir do século XVII. A instalação das primeiras livrarias, de modistas e confeitarias nos séculos XVII e XVIII determinou uma determinada especialização de actividades que atraíram ao Chiado a aristocracia da capital e os visitantes estrangeiros. A zona foi sistematicamente apropriada como centro da cultura urbana aristocrata e da vida intelectual. Surgiram Hotéis, cafés, ?restaurantes, livrarias, teatros e mais tarde cinemas, intensificando-se a vivência que ainda hoje perdura na nossa memória colectiva. O chiado ganhou, assim, os atributos de boémio, cosmopolita, romântico e modernista.

A crise da civilização assume diversas formas, mas tem um aspecto central, que é a diversidade e complexidade do mundo em que vivemos. Esta complexidade levou, por exemplo a que os antigos armazéns ?Grandela? tenham dado origem a um centro comercial e a que proliferem na zona os chamados franchising.

A realidade é que este espaço tão povoado, quase não tem moradores, portanto o que move a maioria dos seus habitantes é o comércio.

Quase involuntariamente, quando damos por nós, já estamos a consumir. O indivíduo que não tem poder de compra sente-se frustrado, inferior.
Neste espaço onde coabitam diferentes classes sociais, os ?sem abrigo? ofendem-se se não os presenteamos com as moedinhas que eles referem ser para um ?bolinho e um café?.
Bolinhos e café?comprinhas nas lojinhas que tão simpaticamente têm as portas abertas de par em par e nos convidam a tocar e experimentar...como um jogo?e depois de repente presenteiam-nos com baixas de preços. Oportunidades únicas de possuir aquele objecto tão desejado.
Desejado hoje! Mas tão rapidamente ultrapassado por aquele que chegará para a semana e pelo qual ficaremos a sonhar novamente.

Somo ?atacados? pelas imagens, ?arrastados? pelas modas, ?violados? pelo consumo.
Os objectos, bem como as cidades, deveriam servir para os usarmos e não para sermos usados por eles.

Informação; Escolha; Disponibilidade ? CONSUMO!
Mas se o consumo não solicita a sua negação, não valoriza a transgressão do seu próprio limite, a indignação tem de partir do consumidor.

Joana Tavares