Quinta-feira, Março 10, 2005

Habitat

Hoje em dia é difícil encontrar uma cidade cuja actividade principal do seu centro urbano não seja direccionado para o turismo e/ou para o comércio. Da América à Ásia à Europa, existe cada vez mais uma tendência para haver uma monopolização do comércio das cidades por parte das grandes empresas em deterimento do pequeno comércio que, sem capacidade para competir com preços de franchising e de sociedades com grandes capitais investidos e ganhos, vai falindo aos poucos. O metro quadrado dentro da cidade atinge preços insuportáveis tanto para um novo arrendamento de um negócio com pouco capital (ou sem subsísidio estatatal) , bem como para a habitação, ainda mais para a habitação com alguma qualidade. Há, no fundo, uma tendência para desabitar esses centros urbanos de modo a que se possam optimizar os poucos espaços úteis em locais tornados em lojas, empresas, escolas, etc. As povoações concentram-se essencialmente nas periferias urbanas (os "dormitórios" ), onde sobra pouco tempo para desfrutar da vida no lar, por causa do vai-e-vem diário para os trabalhos (estes situados nos centros das cidades) mas onde o preço pela habitação é bastante mais convidativo e, por isso, permite aos moradores uma comodidade muitíssimo maior no alojamento. Isto faz com que as casas sejam cada vez mais para dormir, por exemplo, nas casas novas, os quartos têm um espaço abissalmente mais pequeno do que as salas ou mesmo as cozinhas. Resultado: Habitat = Abrigo.
De resto, referindo-nos aos centros urbanos em si, pelas razões essencialmente economico-financeiras deste fenómeno, são lugares, na sua generalidade, destinados ao comércio, ao turismo, à prestação de serviços, resumindo, locais confinados ao consumo.
Existe toda uma máquina cada vez maior de atrair as pessoas para estes centros para que o funcionamento da economia dos grandes centros urbanos não páre para que as pessoas consumam cada vez mais e, sobretudo, criam-se necessidades de compra para todos os produtos e serviços. Coisas que não imaginávamos ontem precisar, estão nas nossas casas amanhã como algo de absolutamente imprescindível. É esta a máquina consumista que não deixa que estes grandes centros urbanos voltem a ser o local onde as pessoas habitam e trabalham sem o seu dia-a-dia cansativo de vai-e-vem.
E não falo de consumismo que não me lembre de um filme de David Fincher no qual um personagem depressivo e absolutamente viciado num modo de vida compulsivamente organizado, que vivia dentro de um habitat construído por si de forma doentia, com todos os tipos de acessórios desnecessários criados por uma sociedade, em prol de um conforto absurdo e esgotante. Este personagem desnvolve então um alter-ego visonário e libertador que se revela, a certa altura com uma citação, nada bonita mas assaz inteligente (resume o carácter práctico de uma ou várias gerações) : "We are the middle children of history, with no purpose or place. We have no Great War, or Great Depression. The Great War is a spiritual war. The Great Depression is our lives. We were raised by television to believe that we'd be millionaires and movie gods and rock stars -- but we won't. And we're learning that fact. And we're very, very pissed-off".
Admitamos.

Ana Paula Rebelo