Terça-feira, Fevereiro 01, 2005

Ética de utilização

Paul Virilio apresenta-nos uma visão pessimista de uma evolução tecnológica exponencial. Questiona meios e processos actuais assim como um possível futuro de que nos aproximamos. Da televisão à internet, dos media e a televigilância aos transportes. Enuncia a velocidade, sempre aliada à riqueza, como causa para uma perda de identidade, de historicidade e de sentido do "eu" no mundo e da sua grandeza. Antecipa uma época em que os factores negativos proporcionados pela ambição de inovação e pelas próprias evoluções tecnológicas, serão superiores aos factores positivos. Exemplo da invenção do elevador, que possibilita uma deslocação com pouco esforço físico mas por outro lado os utilizadores deixam de utilizar as escadas, e por conseguinte, deixam de ver o que rodeia, num sentido metafórico. Ou ainda, a evolução do transporte ferroviário para o TGV, que encurta as distâncias mas perde-se a paisagem, e com o avião, em que se perde o paquete e a noção de grandiosidade do oceano, da terra.
Ou seja, o processo tecnológico terá sempre uma face positiva e outra negativa e o preocupante é o aumento dos factores negativos. Mas não será uma visão excessivamente pessimista? O que faremos então? Qual será a nossa motivação? A estagnação? A internet e outros avanços contribuiram e contribuem para um afastamento do sujeito do meio que o rodeia, entenda-se por meio todo um ambiente físico e social. Numa época em que as ciber-relações e quase uma ciber-vida se afirmam, nenhum destes conceitos deixa de ser questionável. A solução proposta poderá passar numa preferência pela fala, pela escrita, pela palavra e o contacto humano. Mas como regressar a esses valores? Será a solução uma abolição dos progressos? Para além de não parecer uma visão viável, a solução não passará por medidas tomadas a nível de produção material, visto que a velocidade e a riqueza estão directamente associadas à própria estabilidade de um país. Serão então medidas de produção psicológica, digamos assim, que poderão possibilitar um crescimento tecnológico mais saudável. Há toda uma consciencialização ética de utilização que é necessária à discussão para uma posterior divulgação e aplicação. É necessário que a evolução não seja imposta de forma abusiva mas sim de forma a ser questionável. Mas por aqui passa também por um papel dos media e pelos escrúpulos da publicidade, e talvez tenhamos chegado a uma crise de valores que dificulta este pensamento. Talvez não estejamos numa época em que faltam valores, mas antes, uma multiplicidade de valores com os quais predomina uma dificuldade de união ou de aceitação.
Todo o nosso progresso tecnológico, associado mais directamente ao osso raio de acção, tem como característica possibilitar fazer mais, num periodo de tempo mais curto, para teoricamente haver um aumento de tempo supostamente de lazer, para o sujeito. A questão é se essa possibilidade de velocidade num aumento de produção terá mesmo consequências de aumento de tempo próprio para o sujeito. Ou seja, já conseguimos, por exemplo, por avanços tecnológicos, estar no local X e colocar a máquina de lavar roupa no local Y a funcionar. O problema a reflectir é se o tempo ganho servirá para o sujeito ter mais actividade no local X ou no local Y, interpretando X como local de emprego, e o local Y como casa. E aqui voltamos à questão da utilização da internet por uma geração mais nova que passa cada vez menos momentos familiares e de contacto humano, procurando talvez essa companhia num ciber-espaço. Ou seja, estamos a evoluir para o nosso bem estar e felicidade ou para as engrenagens de uma máquina em que o objectivo da velocidade é apenas o de riqueza?
Poderá ser esta falta de exercício mental que possibilita a instalação de todo um sistema de videovigilância em Reiquiavique, e ainda a abertura da transmissão, das cameras com objectivos de segurança, para um canal televisivo. Tudo isto com o consentimento de uma maioria da sociedade, e ainda oferecendo audiências elevadas ao canal. A ficção literária passa a realidade e a capacidade de juízo dos cidadãos é diminuta, talvez por falta de um clima de incentivo e reflexão.
Relembro que Nobel, após inventar a dinamite e de se aperceber que a sua utilização de forma negativa era prejudicial, dedica grande parte da sua vida a defender um uso correcto e a alertar para os perigos adjacentes. O mesmo sucedeu-se com o pai da energia nuclear.
Será este tipo de cuidado o necessário para evitar um excesso de factores negativos em avanços tecnológicos, procurado antever os seus resultados negativos antes da criação. É necessária uma política de ética de utilização e não uma política de não incentivo ao progresso tecnológico.

Sérgio Marques.3088