Terça-feira, Fevereiro 01, 2005

A Era do Capitalismo

"O feio vende-se mal."
Raymond Loewy

Tentando dividir por etapas a história do Chiado poder-se-á fazê-lo em três épocas, sendo a primeira caracterizada pelo clero (conventos, igrejas), a segunda pelos intelectuais e fidalgos (palácios e palacetes), e a terceira pela burguesia (lojas) que se instalou após o terramoto de 1755 e tem vindo a crescer até hoje.
Depois do incêndio de 1988 poderá ter nascido uma nova era do Chiado que, apesar de vir na continuação da anterior, tem características muito mais vincadas: a era do capitalismo. O chiado tornou-se num shopping. Se não tivessem sido os interesses económicos será que o Chiado teria renascido das cinzas? Não posso negar que esta continua a ser a zona das artes, dos intelectuais, da junção de culturas, mas não viverá esta parte do Chiado dependente da parte económica? Será que, por exemplo, os teatros teriam o mesmo público se esta zona não fosse comercialmente chamativa ou se tivessem peças menos "comerciais"? (O Teatro Ibérico, com teatro dito alternativo, localizado em Xabregas, zona pouco "nobre", está quase sempre às moscas). As pessoas encheriam as ruas se não houvesse lojas ao longo delas com produtos atractivos e até música condizer? A minha resposta é não. E por morar nesta zona tenho oportunidade de argumentar isto: aos Domingos as lojas da rua Garrett estão fechadas, ao Domingo a Rua Garrett está praticamente deserta, ao Domingo os centros comerciais estão repletos de gente. Ainda há dias uma das reportagens do telejornal (não me recordo o canal) tinha como título algo como "as pessoas são felizes a consumir". E com entrevistas feitas a transeuntes isso era realmente provado. As pessoas são felizes a consumir porque o comércio usa das necessidades que elas têm de se sentirem bem, principalmente em relação aos outros. No Chiado pode, na mesma rua, comprar-se um acessório novo e mostra-lo aos outros.
As rendas dos próprios locais não poderiam ser pagas por uma entidade que não tivesse um imenso lucro do negócio aí estabelecido. E assim como os espaços comerciais, também os habitacionais, que se tornaram em andares adjacentes das lojas, em escritórios ou em moradias de luxo.
Até na nossa faculdade nos deparamos com esta questão. Há anos que se prevê a recuperação do edifício que a alberga. Mas, se sairmos enquanto é recuperado, não há garantia que regressemos. Haveria muitas outras soluções bastante lucrativas para um local tão bem localizado (quiçá um casino?). Na mentalidade capitalista que nos rege seria talvez um desperdício ter lá uma faculdade de belas artes. Investe-se no lucro imediato, não na formação futura.
O futuro? O capitalismo tem vindo a invadir-nos desde há séculos e há-de continuar, cada vez de uma forma mais voraz, e devorará todos os valores (os que ainda restam). O Chiado ganha vida mas perde a alma.

Joana Vieira #2913