Cibermundo: a política do pior
Dia 31 de Dezembro de 1999. Noite de fim-de-ano, a mais temida e aguardada devido à mudança de século. Para uns representava o fim do mundo, catástrofes, calamidades; para outros, era uma simples mudança de ano. No entanto, para a maioria havia um medo colectivo instalado que se concretizaria ou não quando soassem as doze badaladas. O problema era o caos dos sistemas informáticos, o não sabermos se estaria tudo preparado para a mudança de algarismos ou se tudo voltaria a contar do zero, gerando um pânico sem precedentes com consequências graves para a economia mundial. Tudo por uma economia de dígitos na programação das datas, usando apenas dois em vez de quatro para o ano. Assim, 99 passaria a 00, a nossa idade seria negativa, o nosso saldo bancário inexistente, e por aí fora.
Encontrávamo-nos todos expectantes e, devido a ume esforço de organização feito com poucos meses de antecedência e um pouco de sorte, o ano mudou e os medos não se confirmaram.
A partir daqui, podemos ver o quão dependentes somos da tecnologia. Novos produtos surgem todos os dias. Um novo aparece, o velho está obsoleto. Adquirimo-los, tornam-se parte integrante das nossas vidas, são extensões do nosso corpo. A sua ajuda na vida diária é inquestionável, aquilo que alguns electrodomésticos e produtos de electrónica permitem realizar facilita-nos a vida e poupa-nos tempo precioso. No entanto, a nossa dependência é já tão forte, a sua presença tão vincada, que já não sabemos o que fazer sem eles. Quando nos encontramos em situações que requerem a utilização ou recurso a meios mais rudimentares, bloqueamos, não sabemos o que fazer. Deixamos de usar uns instrumentos em detrimento de outros, "Quando se inventa o elevador, perde-se a escada".
Criámos as máquinas para que nos auxiliássem e, hoje em dia, estamos dependentes delas.
Primeiro, a revolução industrial, depois a revolução dos transportes e, hoje, a revoução tecnológica e de informação.
Os avanços e novas descobertas na área da tecnologia têm vindo a aumentar exponencialmente, conseguimos hoje fazer coisas que, há uns anos, eram somente imaginadas, quando muito fazendo parte do enredo de um livro ou filme de ficção.
A capacidade de comunicarmos e, ao mesmo tempo, vermos alguém que está do outro lado do mundo, os trabalhos ao nível dos implantes na nanotecnologia, as primeiras experiências de geração de clones, são acontecimentos tão fantásticos como controversos e apelam em alguns casos à ética. Como diz Paul Virílio, o mundo deixou de ter fronteiras, e a velocidade é sinónimo de poder e riqueza.
Hoje, podemos conhecer o mundo, trabalhar, fazer as nosass compras, pagar as contas, tudo sem termos de sair de casa. E, quando as casas forem completamente automatizadas, nem teremos de nos levantar do sofá. O mundo encontra-se à distância das nossas mãos.
A sedentarização torna-se um problema. As relações familiares desaparecem. Cada um fecha-se em si, com a sua tecnologia de eleição, e os tempos que dantes eram dedicados à conversação são passados diante do écrãn a receber informação.
Vivemos bombardeados por informação, temos cesso a tudo dos quantro cantos do mundo. A tudo aquilo que querem que tenhamos acesso. A informação é que move o mundo e os media controlam-na, controlando-nos por associação. A visão que temos do mundo é cada vez mais condicionada por todos os preconceitos que nos são incutidos. A informação, a imagem, a publicidade, são as grandes armas dos dias de hoje. Um bom exemplo nos tempos recentes é-nos dado pela "preparação" da população dos EUA e da Europa para a guerra no Iraque.
Quem detém a tecnologia detém o poder. Em termos económicos, temos actualmente três grandes potências mundiais: os EUA, a Europa e a Ásia (em particular a China). No entanto, em termos de informação, as verdadeiras potências são os EUA e a "opinião pública" global, e só a capacidade de indignação desta parece poder travar a "grande estratégia imperialista" da única verdadeira potência militar actual. Os EUA constituem também a principal potência económica mas, em breve, a China poderá liderar os mercados e absorver tudo à sua volta. A China é o mercado em maior expansão, com taxas de crescimento próximas dos dois dígitos, e a sua enorme população constitui um manancial de potenciais consumidores num mercado que ainda tem um rendimento per capita muito baixo. À medida que o poder de compra do chinês for evoluindo, a China passará a ser a grande potência económica e o mandarim uma das línguas obrigatórias do comércio internacional. A nível de tecnologia, os países mais avançados estão na Ásia ? são disso exemplo o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan, e as regiões mais abertas economicamente da China. Entretanto, na velha Europa, a população decresce e envelhece, acomoda-se, e a liderança outrora conduzida pela recuperação do pós-guerra, em particular pelo Reino Unido, Alemanha e França, está a desmoronar-se...
Apesar de tudo, a tecnologia não é a única coisa que tem de nos preocupar, em tudo o que de novo surge há sempre prós e contras. A democratização da informação com o avanço tecnológico trará tantos benefícios como novos motivos de preocupação. Esta não será de todo a única causa para a situação em que nos encontramos e, no entanto, a democratização da informação é relativa: apenas os países industrializados (os chamados países do primeiro mundo) disfrutam de tudo o que advém da informação, da tecnologia, sendo o fosso para os países do terceiro mundo cada vez maior. No entanto, para o cidadão comum, a informação não se traduz necessariamente em conhecimento: cada vez mais somos confrontados com o seu excesso e o enorme detalhe de irrelevâncias com que somos bombardeados todos os dias faz com que o tempo disponível para transformarmos a informação em algo útil para nós, em conhecimento, seja cada vez menor ? sabemos cada vez mais um pouco de tudo e verdadeiramente nada de cada matéria particular, excepto se formos "especialistas" por razões profissionais ou de interesse pessoal.
Ana Rocha
Encontrávamo-nos todos expectantes e, devido a ume esforço de organização feito com poucos meses de antecedência e um pouco de sorte, o ano mudou e os medos não se confirmaram.
A partir daqui, podemos ver o quão dependentes somos da tecnologia. Novos produtos surgem todos os dias. Um novo aparece, o velho está obsoleto. Adquirimo-los, tornam-se parte integrante das nossas vidas, são extensões do nosso corpo. A sua ajuda na vida diária é inquestionável, aquilo que alguns electrodomésticos e produtos de electrónica permitem realizar facilita-nos a vida e poupa-nos tempo precioso. No entanto, a nossa dependência é já tão forte, a sua presença tão vincada, que já não sabemos o que fazer sem eles. Quando nos encontramos em situações que requerem a utilização ou recurso a meios mais rudimentares, bloqueamos, não sabemos o que fazer. Deixamos de usar uns instrumentos em detrimento de outros, "Quando se inventa o elevador, perde-se a escada".
Criámos as máquinas para que nos auxiliássem e, hoje em dia, estamos dependentes delas.
Primeiro, a revolução industrial, depois a revolução dos transportes e, hoje, a revoução tecnológica e de informação.
Os avanços e novas descobertas na área da tecnologia têm vindo a aumentar exponencialmente, conseguimos hoje fazer coisas que, há uns anos, eram somente imaginadas, quando muito fazendo parte do enredo de um livro ou filme de ficção.
A capacidade de comunicarmos e, ao mesmo tempo, vermos alguém que está do outro lado do mundo, os trabalhos ao nível dos implantes na nanotecnologia, as primeiras experiências de geração de clones, são acontecimentos tão fantásticos como controversos e apelam em alguns casos à ética. Como diz Paul Virílio, o mundo deixou de ter fronteiras, e a velocidade é sinónimo de poder e riqueza.
Hoje, podemos conhecer o mundo, trabalhar, fazer as nosass compras, pagar as contas, tudo sem termos de sair de casa. E, quando as casas forem completamente automatizadas, nem teremos de nos levantar do sofá. O mundo encontra-se à distância das nossas mãos.
A sedentarização torna-se um problema. As relações familiares desaparecem. Cada um fecha-se em si, com a sua tecnologia de eleição, e os tempos que dantes eram dedicados à conversação são passados diante do écrãn a receber informação.
Vivemos bombardeados por informação, temos cesso a tudo dos quantro cantos do mundo. A tudo aquilo que querem que tenhamos acesso. A informação é que move o mundo e os media controlam-na, controlando-nos por associação. A visão que temos do mundo é cada vez mais condicionada por todos os preconceitos que nos são incutidos. A informação, a imagem, a publicidade, são as grandes armas dos dias de hoje. Um bom exemplo nos tempos recentes é-nos dado pela "preparação" da população dos EUA e da Europa para a guerra no Iraque.
Quem detém a tecnologia detém o poder. Em termos económicos, temos actualmente três grandes potências mundiais: os EUA, a Europa e a Ásia (em particular a China). No entanto, em termos de informação, as verdadeiras potências são os EUA e a "opinião pública" global, e só a capacidade de indignação desta parece poder travar a "grande estratégia imperialista" da única verdadeira potência militar actual. Os EUA constituem também a principal potência económica mas, em breve, a China poderá liderar os mercados e absorver tudo à sua volta. A China é o mercado em maior expansão, com taxas de crescimento próximas dos dois dígitos, e a sua enorme população constitui um manancial de potenciais consumidores num mercado que ainda tem um rendimento per capita muito baixo. À medida que o poder de compra do chinês for evoluindo, a China passará a ser a grande potência económica e o mandarim uma das línguas obrigatórias do comércio internacional. A nível de tecnologia, os países mais avançados estão na Ásia ? são disso exemplo o Japão, a Coreia do Sul, Taiwan, e as regiões mais abertas economicamente da China. Entretanto, na velha Europa, a população decresce e envelhece, acomoda-se, e a liderança outrora conduzida pela recuperação do pós-guerra, em particular pelo Reino Unido, Alemanha e França, está a desmoronar-se...
Apesar de tudo, a tecnologia não é a única coisa que tem de nos preocupar, em tudo o que de novo surge há sempre prós e contras. A democratização da informação com o avanço tecnológico trará tantos benefícios como novos motivos de preocupação. Esta não será de todo a única causa para a situação em que nos encontramos e, no entanto, a democratização da informação é relativa: apenas os países industrializados (os chamados países do primeiro mundo) disfrutam de tudo o que advém da informação, da tecnologia, sendo o fosso para os países do terceiro mundo cada vez maior. No entanto, para o cidadão comum, a informação não se traduz necessariamente em conhecimento: cada vez mais somos confrontados com o seu excesso e o enorme detalhe de irrelevâncias com que somos bombardeados todos os dias faz com que o tempo disponível para transformarmos a informação em algo útil para nós, em conhecimento, seja cada vez menor ? sabemos cada vez mais um pouco de tudo e verdadeiramente nada de cada matéria particular, excepto se formos "especialistas" por razões profissionais ou de interesse pessoal.
Ana Rocha

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