Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005

Cibermundo ou Mundo Real

Paul Virilio, nesta obra "Cibermundo: a Política do Pior" traça uma análise à constante evolução das tecnologias bem como à directa relação que estas têm com a sociedade de informação.
Diz-se "simplesmente um verdadeiro amante das novas tecnologias", e que não é "nada contra o progresso", mas refere também, que não nos deixemos iludir por toda esta pirotecnia nos meios comunicacionais que nos invade diaramente, pois esta não será a solução para um mundo mais perfeito, não é de todo a poção mágica que "trará finalmente a felicidade e uma humanidade maior". E não é mesmo.
Toma como objecto do seu trabalho, o mostrar, o tornar público certas tendências negativas que se observam para prevenir o mal.
Uma das tendêncais que aborda são as teletecnologias, nomeadamente o trabalho à distância, as tecnologias de informação que ameaçam certas necessidades sociais, como a leitura, a escrita, a palavra, para além das relações interpessoais, da socialização que se faz através da língua, que são cada vez mais menosprezadas. A criação de famílias monoparentais, assistindo-se a uma desintegração, em detrimento dos verdadeiros valores familiares é outra tendência que evoca.
São facilidades e consequências destas facilidades que dão à pessoa capacidade de viver a sua vida sem se mover, sem sair de casa, como se de um corpo deficiente se tratasse. Não considero incorrectas estas facilidades, se estivermos a falar da melhoria das condições de vida de quem de facto possui deficiências motoras. Mas estamos a falar de tecnologias de informação, de dispositivos que atingirão também os válidos, os locomotores. Virilio relata uma situação, "Fiquei surpreendido ao ver que estes homens de carrinho estavam escandalizados diante das teletecnologias. Eu vi reacções de estupefacção face ao facto de os válidos utilizarem técnicas destinadas a deficentes que sofriam, por exemplo, por não poder deslocar-se para abrir uma janela."
São uma série de dispositivos e tecnologias comunicacionais que permitem que o homem seja cada vez mais homem-sedentário e na relação que desenvolve com os objecto seja obrigado a conferir-lhes uma identidade, passando assim a trabalhar com aparentes identidades, que substituem as pessoas, as relações entre estas.
Homem-sedentário, aquele que carrega no botão para abrir a janela, que liga a televisão para ver o estado do tempo, quando poderia/deveria dirigir-se à janela, abri-la e constatar quais as condições atmosféricas. Ou então aquele que, ?tira uma foto? do calendário de frequências em vez de copiar as datas de caderno e lápis na mão.
Já se observam nos dias de hoje certas tendências referidas pelo autor, efectuamos movimentos de contas, recarregamos o telefone móvel, pagamos a electricidade... fazemos um sem fim de outras coisas sem sair de casa, sempre através de um mero pressionar de uns pequenos botões que nos permitem descobrir o mundo. Isto porque nos permite fazê-lo com velocidade e comodidade. Mas serão sempre necessários estes valores? Serão primordiais nas vivências humanas? se é que assim estas continuam a existir...
O Tgv, como paradigma da velocidade e da evolução das tecnologias dos meios de transporte. "... e quando se inaugura o TGV, perde-se a paisagem!", comparo esta exclamação de Philippe Petit, com o dia-a-dia no Metropolitano.
É mais rápido... só isso! Não me substitui o olhar pela janela do autocarro e ver, ter a noção de que espaço estou a percorrer, se é dia ou noite, se faz Sol ou não. Há apenas um ruído constante causado pelo ferro e um olhar no escuro. É do prazer sensorial que falo, das sensações despertas pelo olhar de uma paisagem, urbana na maioria, mas paisagem.
É neste contexto que acho oportuno recorrer a uma frase de Paul Virilio,
"da publicidade passou-se à propaganda e da propaganda à ocupação do território emocional." Haverá alguém mais vulnerável do que a pessoa que viaja por baixo do solo a olhar para o escuro? Claro que quando chega a uma estação o seu olhar faminto de forma e côr recairá sobre os painéis que vendem produtos, e isso preenche de certa forma o interior emocinal das pessoas, desperta nelas a vontade, o querer.
Posso então também eu afirmar que os media são de facto detentores de poderes feiticeiros.
A televisão utiliza estes poderes através da ?tirania do tempo real? que pratica. É o imediato, o real, ali, naquele momento, sem permitir pensamento, sem permitir escolhas apenas despertando reflexos.
É o meio de comunicação ?propangandístico por excelência?, não só a nível de venda de produtos, mas também a nivel político, a todos os niveis.
"Filtering information, / For the public eye, / Designed for profiteering" Serj Tankian
Será possível mudar, mudar esta televisão que temos, que nos é apresentada? Segundo Virilio essa mudança não deverá ser feita na televisão, media antigo, mas sim num novo dispositivo de comunicação pois a televisão está perdida.
Assiste-se hoje, a uma televisão com horror ao vazio, onde a ?tirania do tempo real?, dos directos, é cada vez mais recorrente.
"A televisão mata mais depressa do que as balas." Emir Kusturica
Há uma competição, por vezes desmedida entre estações, há a necessidade de mostrar que foi aquela estação a mais vista em tal dia em tal horário, depois fazem questão de agradecer a todos os que fizeram com que tal coisa fosse possível. Parece que não se faz mais nada para além de diariamente brincar ao ?toma-toma-sou-melhor-do-que-tu?! Basta destas coisas!
"A televisão, tal como a Natureza, tem horror ao vazio. O extraordinário é que enquanto a Natureza ocupa o vazio com matéria, a televisão ocupa o vazio com... mais vazio." Miguel Gaspar
Já que faço referência à necessidade de auto-valorização, que dizer dos autarcas que constroem e constroem coisas e coisinhas para lhes ser tal feito reconhecido e consequentemente ganhar o implorado voto. Exemplo prático: passeios de rua, primeiramente largos e com razoáveis condições de passagem, são tranformados em lugares de estacionamento para automóveis, tendo o peão que zigue-zaguear para poder prosseguir o seu caminho. E as raras rampas perto das passadeiras, para aqueles que têm necessidade de se deslocar em cadeiras de rodas, que fazem do atravessar da estrada uma verdadeira aventura. Claro que o mais importante nestes casos todos são os dois ou três lugares para estacionar a mais que há naquela rua, para que o autarca ganhe reconhecimento, pois está a dar mais importância às necessidades da maioria sem se aperceber que prejudica ao mesmo tempo outros utilizadores do mesmo espaço.
"Ora, hoje, os media não trabalham sob forma de narrações mas sob forma de flashs e de imagens. Há, pois, uma redução à imagem da história." Paul Virilio
Flashs e imagens e imagens e imagens, foi o que vimos e revimos da tragédia do Sudeste Asiático.
"Sucedem-se repetidamente no ecrã do computador, dois segundos, três segundos, em sequência. Em consequência. Fixo uma fotografia ? não há pessoas, há espectros, há fantasmas" Pedro Rolo Duarte
A realidade a que todos assistimos... em directo! Durante um mês, todos os dias as mesmas coisas, os mesmos relatos, as mesmas imagens. Sim aconteceu, já percebemos, lamentamos por não sermos capazes de fazer algo verdadeiramente útil. Mas o mundo não parou ali, continuaram a acontecer outras coisas por toda a parte, sabiam? Espero que sim.
"4000 hungry children leave us per hour, / From starvation, / While billions are spent on bombs, / Creating death showers" Serj Tankian
Não terá havido um exagero por parte dos media? Não se terão estes aproveitado da catástofre alheia para vender? E as campanhas de mobilização de fundos e de ajudas humanitárias? Sim, são necessárias, mas aqui, no nosso território também existem pessoas a necessitarem de ajuda. Lá por que não mostram na televisão durante um mês essa realidade repetidamente, não quer dizer que ela não exista e que não tenha importância.
"Amar o longínquo, isto é o estrangeiro, sim! Mas amar o longínquo em detrimento do próximo, não!" Paul Virilio
Velocidade, poder e riqueza, para Virilio estes conceitos estão sempre relacionados. Estará aqui a explicação para o facto de Portugal não ser mais poderoso, mais rico? É que por cá, produz-se devagar, e deixa-se para mais logo, ou para amanhã...


Paul Virilio, ?Cibermundo: a Política do Pior?
Serj Tankian, ?BOOM?
Miguel Gaspar, ?A televisão vazia?, Diário de Notícias
Pedro Rolo Duarte, ?As imagens à minha frente?, Dna

Nuno Miguel Silva