terça-feira, outubro 26, 2004

O que é ser designer contemporâneo?

O que é ser designer contemporâneo?
Numa perspectiva medíocre e pouco ambiciosa, o designer contemporâneo vive ancorado à estabilidade que a economia/ mercado lhe oferece e propõe. Infelizmente, na nossa sociedade está cada vez mais implementado que o design está ligado ao consumo. O esforço nobre dos designers que trabalham na indústria da publicidade, mal gasta-se em propósitos triviais, que em pouco ou nada contribuem para a prosperidade da humanidade.
O consumismo seduz cada vez mais a sociedade por oferecer meios mais lucrativos, eficazes e desejáveis. É por isso que quando se navega em sites de design, descobrimos afirmações tais como: "Mudou o olhar, a percepção, a intenção - mudou o mercado. Pelo menos no que diz respeito ao produto para a casa." E depois ainda acrescentam: "Mas o que mudou? (...) Podemos dizer que a mais clara evolução é o estrelato alcançado pelo design no mundo. De ingrediente estético-formal transformou-se em ferramenta para a competitividade, alavanca da produtividade." O mais grave nestas afirmações é que a sociedade de hoje acredita verdadeiramente nisto.
Alcançámos um ponto de saturação tal, que o mais agudo dos gritos que o mercado de consumo nos lança, não é mais do que ruído. Daqui resultam projectos de design de pouca ambição, que se contenta com a resposta imediata àquilo que é previsível pelo mercado. É um design que não contribui para o crescer da sociedade, com o crescer de novas procuras, novas ideias e buscas, preferindo se contentar com o que já existe, sem inovar.
Fala-se aqui de todo o design que está submetido aos interesses económicos, deixando para segundo plano aquilo que é a dimensão cultural.
Mas o designer tem de ambicionar e libertar-se, e ir muito para alem do que o mercado lhe oferece. O design apenas é capaz de se libertar quando deixa de estar ao serviço dos interesses económicos, e passa a mergulhar na dimensão cultural, encontrando a liberdade de se conhecer a si próprio e a sua própria linguagem.
Antes de tudo, o designer quer e deseja mudar o mundo. Mas para o mudar é necessário conhecer-lhe as entranhas, para criar novas manifestações.
O papel do design é acompanhar a evolução na dimensão política, social e ética, e tendo a responsabilidade de contribuir para o crescimento da sociedade, transfigurando-se à realidade e àquilo que já existe, e a si mesmo. A mudança passa pela sua libertação da sociedade e da vida a que estamos confinados.
O designer contemporâneo é aquele que está em alerta permanente ao mundo que o rodeia. É um conhecedor profundo de todos os fenómenos ocorridos na sociedade. Todos estes fenómenos são vividos no seu interior, passando por um processo crítico e analítico, capaz de servir para projectos de design futuros.
Como qualquer outra manifestação da cultura o design organiza-se segundo forças concorrentes, que ao interligá-las forma novas manifestações. Por outras palavras, o designer ao estar a par do mundo, tem de ter a capacidade de cruzar esse conhecimento, de maneira a criar novas linguagens.
Mas qual o papel do designer na sociedade? O designer tem de interagir com a sociedade, tem de intervir no objecto que produz, numa atitude complexa e intensa. Quer isto dizer que, o designer está em permanente actividade, numa atitude de cumplicidade com toda a gente. Mas o olhar crítico e atento é essencial na sua formação.
Ao contrário do que os objectos de consumo nos dizem, que aparentam dar respostas finais, no design ambicioso não existem certezas. O designer tem de viver exactamente em permanente procura, sendo capaz de pôr os seus próprios projectos em causa, confrontando-os, e nunca tomá-los como finais. Faz parte de um projecto de design o caminho da procura, do ensaio.
Conclui-se assim que o design é feito de um mundo de incertezas e sem limites, capaz de dar asas àquilo que pode nascer.

Mariana Lancastre

1 Comments:

Blogger Rafael Ribeiro said...

Muito bacana seu texto mariana, mas acho que pensar o design junto com a economia nao é tao ruim assim, veja bem, estou lendo um livro que se chama " O mundo dos bens - Para uma antropologia do consumo"de Mary Douglas, é um livro bastante interessante sobre consumo mas tratado sob o olhar da antropologia, sendo assim a autora propoe que esse ato de consumir é uma questao cultural e deve permanecer assim... Um exemplo apenas que ela propoe neste livro está em revisar nossos pensamentos e opinioes acerca do consumo pois quando temos em mente a palavra produçao ela logo remete a crescimento, fortalecimento, prosperidade, etc... uma sociedade que produz é considerada avançada, desenvolvida, pioneira, ou seja um monte de caracteristicas positivas... mas quando tratamos de consumo, ele logo é visto como futilidades e frivolidades, como algo ruim, feio e vergonhoso... Oras se existe uma produçao, caracterizada como prospera ela so fara sentido se existir alguem para consumir isso... ninguem no mundo produz algo para nao ser consumido... espero poder contribuir... ainda estou no inicio do livro mas estou bastante entusiasmado.

3 de julho de 2008 às 06:09  

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